Quinta-feira, 17 de Março de 2011

SER IMPERFEITO

Plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.

Plantei mais que uma árvore das quais não tenho notícias, nem lembranças, mas tenho outras, espalhadas por aí que me deram sombra, oxigénio, me encheram a vista e a alma.

Escrever um livro… isso está a ser difícil… escrever uns textos de itinerários de viagens, umas descrições da natureza ou de monumentos, uns artigos para uns blogues, uns poemas para musicar ou umas frases para pensar, ainda tenho conseguido, agora um livro… isso está longe, muito longe… tentei já começar alguns dois ou três, mas a tarefa é complicada, senão também todos éramos escritores e isso na verdade não é bem assim.

Filhos, tenho três, aos quais não pude dar aquilo que ansiava, fui dando enquanto pude e sei que alguma coisa foi ficando, estou certo, amor sempre dei e continuo a ter para eles, mas gostava de dar mais… eu tinha que ter dado mais… ainda estou a tempo… é para isso que luto e vou ainda buscar energias onde não sabia que tinha, mas tenho porque para eles, eu tenho tudo!

Sempre pensei que gostaria de ter muitos filhos, claro sendo filho único, é natural, não? Penso que sim. Além disso, os meus filhos, além de filhos, seriam como os irmãos que eu não tive, e, eu poderia ser o pai que não pude ter.

Não por culpa dele, porque tive um grande pai, mas porque as circunstâncias da vida assim não o permitiram, era assim a vida naqueles tempos, nem férias tinha, ia trabalhar de manhãzinha, ainda eu dormia, e voltava tão tarde que eu já estava deitado.

Passávamos pouco tempo juntos, mas era bom, muito bom, gostava muito, e, do Natal, da Passagem de Ano, as prendas no Natal…

Nunca me insurgi por sentir a sua falta, porque na verdade nunca senti, mas sem perceber porquê, por uma vez e nem sei porque o fiz, nunca contei isto a ninguém, quando ele mais precisou de mim… e deu-me tudo… mas quando mais necessitou de mim… eu não estava lá… definitivamente, não fui um bom filho… não sei se alguma vez me vou conseguir perdoar.

Não o pude acompanhar devidamente nos seus últimos dias, por acaso dos acasos que a vida nos apronta, a minha mãe doente por um lado, eu por outro e assim separados, ele partiu sem a nossa presença, mas com o nosso amor.

Nunca fiz planos, nem estratégias organizadas para a minha vida, sempre deixei correr e gozei a vida conforme me foi oferecida, o que tive foram sonhos do que gostaria de ser… do que gostaria de saber… do que gostaria de conhecer… do que gostaria de assistir no futuro… sim, o que seria o futuro?

Fazia contas a que idade teria no ano 2000, pensava de como seria o mundo nesse ano longínquo, e, muito importante, apesar de não ter planos para o futuro, tinha um objetivo, trabalhar muito como o meu pai fazia, mas parar ou passar a trabalhar menos, a partir de uma idade que ainda me permitisse gozar a vida com os meus filhos, as árvores que plantara e escrever o tal livro de que ouvira falar.

Talvez a minha educação e formação em África aliada à que os meus pais me deram me tenham proporcionado uma visão do mundo sem linha de horizonte à vista desarmada, uma capacidade de entender o espaço e o tempo de uma forma especial, a influência dos amigos que tive, deram-me uma dimensão de amizade e solidariedade ainda compostas por uma liberdade de ‘curtir’ muito boa música, com influência do ritmo dos sons africanos, mas na maioria de origem americana, inglesa e brasileira, a portuguesa veio muito mais tarde através do som de intervenção.

Mas a que propósito vem a música agora para aqui chamada, é simples, é que além das canções de puro entretenimento, os temas estavam muito ligados a questões políticas, sociais ou ambientais, com letras bem fortes e que passavam o crivo da censura, não sei se por ser longe da capital ou por falta de conhecimento de idiomas estrangeiros dos censores.

Foi assim que, desde muito cedo, estabeleci contato com realidades que me marcaram, como a guerra do Vietname e tudo o que rodeava esse acontecimento, com a grave crise da criação do Bangladesh e outras situações, por exemplo em África, no Médio Oriente, assim como por todo o mundo, envolvendo crianças, fome, subnutrição, tanto que começou a despertar-me para o que verdadeiramente seria o nosso papel, o de Portugal, em África.

Assisti, ainda antes de viajar para Lisboa, a um terrível flagelo, esse sim ao vivo e que nunca me saiu da mente, como voluntário no hospital da agora Maputo, à porta do serviço de urgência ajudei a separar corpos de crianças dos de adultos, de mortos e de feridos que chegavam amontoados em carrinhas de caixa aberta, que só circulavam nos arruamentos fora dos bairros de ‘palhotas’, porque lá dentro era o Inferno e ninguém queria entrar.

Os corredores do hospital estavam repletos de gente no chão, uns gemendo, outros gritando, mães chamando pelos filhos e filhos chamando pelas mães, não quero, nem estou aqui a fazer juízos de valor, nem me interessa, mas fora do hospital, numa das vezes que parávamos para respirar um pouco, um individuo de camisa camuflada perguntava se estavam a chegar ‘muitos’ e ao mesmo tempo levantava parte da roupa mostrando uma arma… ainda iam ali vangloriar-se, em nome de quê?

A mudança para Lisboa, embora radical em todos os sentidos, veio apanhar-me numa idade de transformação pelo que não terei sentido tanto o que agora sinto, ficando triste pelos meus amigos de quem me iria separar, dos locais que me diziam tanto, mas a vida iria continuar e mais tarde havia sempre a possibilidade de nos reencontrarmos, o que naquele momento se colocava a muito curto espaço de tempo, não tinha mesmo noção...

Outros atrativos surgiram, novos amigos e interesses foram aparecendo, mantinha-se o contato com alguns dos antigos amigos e colegas, esporádicos, mas que dava para matar a saudade, com outros mantive-me em grupo e prosseguimos juntos.

De resto, tudo parecia evoluir bem, aparentemente, tive uma profissão de que muito gostei e não estou nada arrependido de a ter exercido, permitiu-me conhecer meio mundo, com olhos de ver, ouvidos de escutar, pude sentir novos odores, saborear novos alimentos e de sentir todas as emoções que faziam sentido em todo o meu ser.

Mas… a partir de certa altura comecei a sentir uma certa dúvida, muito se falava de ‘Yuppies’, dos jovens da minha geração que se integravam no mercado de trabalho e que outrora tinham ideias similares às minhas, no geral, pensava eu, pois toda aquela geração teve as mesmas influências, uns mais que outros, uns num sentido, outros em sentido diferente… comecei a ver colegas meus que partilhavam os mesmos conhecimentos e ideias que eu, a agir de forma estranha, querendo ocupar lugares profissionais, o que era perfeitamente natural, mas mantendo os modelos que tanto criticaram antes, não faziam a diferença, por vezes atuavam de forma até mais agressiva e competitiva sem olhar a meios para atingir os fins.

Não era nada comigo, continuei o meu caminho e fui trabalhando, entregando-me por completo, sem sentir qualquer pressão para além do normal na atividade de técnico de turismo, que tinha sido a minha opção e bem, embora uma segunda, pois o meu propósito era ir para Direito e seguir Direito Internacional, assim não se proporcionou e foi sem atritos que em boa hora entrei para o curso de Turismo.

Profissionalmente, pelo meu trabalho, pelo meu feitio e adaptação aos vários desafios que se me colocavam, com um pouco de sorte, que também é sempre necessária nestas coisas, pelas pessoas que fui encontrando pelo caminho, fui podendo evoluir e ir introduzindo alguns métodos novos, alterar comportamentos, sendo aceite pacificamente, sem chocar, cuidado que sempre tive pois nunca foi o que procurei, o conflito ou confronto, sempre me fui comportando dentro dos meus princípios e valores, tanto profissionalmente, como na minha vida pessoal, mantendo o meu espírito de liberdade, bom humor, desejoso de uma boa festa, uma boa companhia para conversar até às tantas, mas responsável, respeitando e tendo consideração pelos outros.

Sei que não fui só eu a fazê-lo, mas também tenho a noção de que fui um dos principais influenciadores nesse campo, tal como na introdução de novos destinos turísticos em Portugal, assim como de novos produtos turísticos.

Mas e começava a adivinhar que a minha liberdade de movimentos teria um fim, a certa altura senti alguma pressão por parte de alguns colegas para que me fosse absorvendo pelo que estava instituído, pelo ‘vamos deixar assim, senão temos que fazer sempre mais ainda’, mas era isso que eu gostava na vida e na minha atividade profissional.

Então vem ao de cima o choque de mentalidades, a minha inadaptação pelo que a vida realmente é, porque afinal, nada mudou, os sonhos de outrora, quase todos os esqueceram, deixaram-se enredar por uma sociedade ávida de dinheiro, consumo, centros comerciais em vez de ar livre, o virar a cara à pobreza, à fome, ao mal dos outros e já tínhamos tido um 25 de Abril em Portugal, as mentes estavam abertas, as novas tecnologias todos os dias apresentavam novidades, o mundo ficava mais pequeno, as notícias boas e más chegavam-nos mais depressa, por isso, na verdade, fomos egoístas, virámos a cara e assobiámos para o lado à miséria, à guerra provocada por interesses obscuros, a dramas que nos entravam em casa pela televisão, mas que víamos como se de um filme ou uma série se tratasse… e aqui tão perto, já ali ao lado.

Eu tinha ficado marcado pelo passado e evoluído numa atividade que me permitiu conhecer gentes do mundo, contatar com outras culturas, mais ou menos atrasadas que a nossa, a ocidental, e, enquanto pude trabalhar à minha maneira tudo correu bem, quando tive que me integrar e respeitar regras com as quais não concordava, ser ‘politicamente correto’, não fui capaz… lamento.

Lamento e que me desculpem os meus filhos e quem mais possa ter magoado, mas o meu equilíbrio está dependente da Natureza deste planeta, do próprio equilíbrio da Terra.

Quero ver tudo, estar a par de tudo o que se passa, a minha sede de conhecimento e de acompanhar os acontecimentos é equivalente a alguém perdido no deserto.

Emociono-me quando vejo imagens do resultado de um atentado, imagens de uma guerra, crianças com armas na mão, crianças vítimas de subnutrição, terramotos, ‘tsunamis’, qualquer tipo de catástrofe natural ou provocada pelo homem, direta, ou, mesmo indiretamente.

Fico feliz ou sofro com situações que se passem comigo ou com entes queridos, intensamente, mas as minhas reações aos grandes acontecimentos são diferentes, amplificam-se, a Natureza é mais forte e eu dependo dela!

Como posso eu ser perfeito? Como pode alguém ser perfeito?

A beleza do ser humano é essa, a falta de perfeição, a nossa busca da perfeição, o que encontramos no caminho, os altos e baixos com que nos deparamos nessa demanda pela perfeição.

A Natureza é isso que nos tem querido ensinar, demonstrar, que nem sempre é bela, perfeita, também tem fúrias, também tem altos e baixos, como nós.

Mas tanto num caso como no outro costuma dar-nos descanso, ‘depois da tempestade, vem a bonança’, dias lindos, pacíficos, serenos, de paz, já assisti ao fenómeno, numa praia do Índico que mudou radicalmente, deixou de ser como era e ficou ainda mais bela.

Ao contrário do costume, desta vez, no Japão ficámos com uma dúvida, mas provocada pela mão do homem, as centrais nucleares, algumas construídas à mercê do mar, um mar propenso à formação de ‘tsunamis’. Nem o próprio homem que as concebeu sabe o que pode acontecer, o ‘suspense’ está no ar, a Natureza deixou-nos esse mistério demonstrando-nos que ele é um problema nosso e muito mais calamitoso e grave que o que antes aconteceu, pois um desastre nuclear poderá ter custos e prejuízos incalculáveis para o planeta.

Assim como a mim me deixou um problema para lidar e resolver, um desafio que eu tenho que enfrentar, no caso dos recentes Terramotos e ‘Tsunamis’ do Japão deixou uma situação ao homem para solucionar.

Nem no meu caso particular encontrarei solução, sozinho, pois terei sempre que recorrer a outras instâncias e não deixar morrer os meus sonhos, pois sei que não estou, efetivamente, só, também os países possuidores de centrais nucleares, pelo que aconteceu no Japão encerraram total e/ou parcialmente as suas como medida de precaução, querendo isto dizer que a Natureza colocou o Mundo de prevenção e o alertou para um erro antes cometido e para o qual muitos avisaram atempadamente mas a teimosia e interesses de outros falou mais alto.

Agora deveríamos tentar todos, em comum, chegar a uma solução que nos deixasse em pleno equilíbrio com a Natureza.

A bipolaridade existente no nosso planeta, refletida em tudo o que nos rodeia, assim como em nós próprios, Pólo Norte e seu contrário, o Pólo Sul, Oeste, Leste, yin, yang, positivo, negativo, necessita de equilíbrio constante.

No nosso caso, quando tal não acontece, recorremos a tratamentos e normalmente com alguma medicação a situação é controlável, a Natureza assim o permite, mas os casos noticiados de situações bizarras com a atuação de jovens ou adultos, multiplicam-se, nós próprios, atentem se não é verdade, temos atitudes estranhas, fora do habitual.

Fazemos parte de um todo e esse todo está declaradamente com a bipolaridade em total desequilíbrio, de alguns anos para cá os acontecimentos considerados catastróficos têm sido mais frequentes e violentos, terramotos, ‘tsunamis’, mineiros que são alvo de explosões em minas sem sistemas de segurança adequados, alguns que se conseguiram salvar por ‘milagre’, mas outros nem tanto, gente morta a tiro em estádios de futebol na América Latina, pessoas espezinhadas, mortas e feridas em debandadas para entrar num festival na Europa e na fuga de uma ponte em queda no Oriente…

E os homens que se começam a revoltar em nações tão inesperadas para que isso pudesse acontecer por falta de pão e liberdade, instabilidade social, política e económica no ocidente, após uma crise sem precedentes…

Será este desequilíbrio uma questão metafísica.

Estará a Natureza simplesmente a cumprir a sua missão e nós humanos demos o flanco e agora não temos como nos proteger?

Afinal que procuramos todos, seres imperfeitos?

 

 

 

sinto-me: imperfeito...
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publicado por FV às 21:34
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